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A violência facilitada pela tecnologia contra defensores ambientais, particularmente no Sul Global, faz parte de um contínuo de violência, exploração e extrativismo que está cada vez mais ligado à digitalização – um processo marcado pela extração intensiva de terra, minerais, energia, água, trabalho e dados. Povos indígenas e comunidades tradicionais que lutam para resistir ao extrativismo em seus territórios são impactados pela expropriação de terras, pela degradação ambiental, pela exploração de seus conhecimentos e pelas violações de seus direitos. Essa realidade dura é exposta em quatro novos relatórios de pesquisa que investigam ataques online contra defensores ambientais – e respostas colaborativas a eles – no México, nas Filipinas, no Quênia e no Brasil. Com lançamento previsto para um evento virtual no dia 8 de outubro, os relatórios vêm acompanhados de uma análise comparativa e de uma avaliação das leis e políticas dos quatro países. Antes do lançamento, segue uma prévia dos principais destaques.

Tecendo resistência e resiliência nas realidades vividas

A violência contra defensores ambientais, especialmente aqueles de povos indígenas e comunidades tradicionais, aumentou nos últimos anos, em um contexto marcado pelo ressurgimento de movimentos de extrema direita em várias partes do mundo e pela expansão do tecnocapitalismo sobre territórios tradicionais. Nesse cenário, perpetradores de violência se beneficiam cada vez mais das tecnologias das grandes plataformas digitais, por meio da forma como seu design e seus algoritmos operam, gerando o que passou a ser conhecido como violência facilitada pela tecnologia. Além do dano direto infligido aos defensores e às suas comunidades, essa situação dificulta a luta por justiça socioambiental, pois a violência desestimula o uso da tecnologia por defensores e suas comunidades para incidência política, ativismo e aprendizagem.

É nesse contexto que a iniciativa Resistência e Resiliência foi criada em 2024, trabalhando em estreita colaboração com defensores ambientais para mapear experiências de assédio, vigilância e desinformação direcionada com o objetivo de silenciar a resistência a projetos extrativos. A pesquisa foi implementada por meio de abordagens feministas participativas, em colaboração com mais de 20 comunidades indígenas em quatro países, respondendo às necessidades e prioridades específicas de cada comunidade.

Dois anos depois, esses relatórios identificam os desafios específicos enfrentados em cada país, ilustrando como os ataques online se cruzam com formas históricas de violência e violações de direitos – incluindo dimensões de gênero, raça e etnia profundamente arraigadas.

Nos quatro países, a pesquisa com as comunidades identifica uma importante exclusão digital: o acesso limitado à internet, a dispositivos e a competências tecnológicas aumentou a vulnerabilidade dessas comunidades à desinformação, a fraudes, à vigilância e a ataques online. Além disso, a dominância das empresas de Big Tech na oferta de serviços de internet contribuiu para o impacto das campanhas de desinformação em contextos em que os ecossistemas de mídia local foram dizimados.

A pesquisa nas Filipinas mostra que defensores ambientais de povos indígenas e comunidades tradicionais vivenciam a violência como um processo sistemático, multifacetado e contínuo, e não como incidentes isolados ou esporádicos. A violência facilitada pela tecnologia é cada vez mais usada para silenciar e intimidar defensores, e está se tornando uma dimensão da repressão em expansão.

No Quênia, a pesquisa com quatro comunidades indígenas revela que defensores que trabalham para melhorar a educação ambiental em seus contextos enfrentam uma miríade de discurso de ódio, cyberbullying, vigilância e monitoramento, notícias falsas, desinformação, falsidade ideológica, vazamento de dados pessoais (doxing) e ataques cibernéticos diretos.

No Brasil, a manifestação mais comum da violência facilitada pela tecnologia contra defensores ambientais, particularmente aqueles de povos indígenas e comunidades tradicionais, é a disseminação de desinformação. Embora a desigualdade de acesso ainda seja um desafio, a chegada da Starlink à Amazônia está provocando impactos econômicos, ambientais, sociais e culturais.

Os relatórios também mapeiam diversas formas de resistência e oferecem recomendações concretas para o futuro. Em Cherán, México, após anos de violência do crime organizado e inação governamental, a comunidade começou a se organizar em 2011 para defender sua floresta e estabelecer um sistema de autogoverno. Em resposta à violência facilitada pela tecnologia e à desinformação contra seus membros, particularmente mulheres indígenas em posições de liderança, a comunidade de Cherán criou os próprios meios de comunicação (rádio, redes sociais, intranet) e as estratégias comunitárias de proteção digital.

De modo geral, a pesquisa identificou uma necessidade clara de avaliar melhor o verdadeiro custo das tecnologias e infraestruturas digitais para essas comunidades, levando em conta seus direitos e sua relação com seus ecossistemas ambientais e culturais.

Uma iniciativa colaborativa e liderada pelas comunidades em apoio aos defensores ambientais

A iniciativa Resistência e Resiliência foi criada como um esforço colaborativo para construir uma pesquisa liderada pelas comunidades com defensores ambientais na linha de frente do fechamento do espaço cívico na emergência climática. Ao longo de dois anos, a pesquisa esteve ancorada nas experiências, necessidades e prioridades das comunidades participantes, com pesquisadoras e pesquisadores comunitários envolvidos em cada etapa do processo. Como resultado, os resumos dos relatórios da pesquisa publicados recentemente são mais ricos e mais interseccionais, com um escopo ampliado para incluir discussões sobre como a tecnologia chega a essas comunidades e sobre os impactos do solucionismo das Big Techs nos ecossistemas de mídia local.

Globalmente, a iniciativa Resistência e Resiliência é liderada pela Associação para o Progresso das Comunicações (APC), em parceria com a Indigenous Peoples Rights International (IPRI), que apoia o projeto de modo geral; a Voces del Territorio, que implementa o projeto no México; o Manila Observatory through the KLIMA Center (MO-KLIMA), que implementa o projeto nas Filipinas; o Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, responsável pelo projeto no Brasil; e o Ogiek Peoples’ Development Program (OPDP), que implementa o projeto no Quênia.

A iniciativa Resistência e Resiliência conta com o apoio do International Development Research Centre (IDRC), que apoia iniciativas na Ásia, na África e na América Latina que trabalham com defensores ambientais no contexto do fechamento do espaço cívico na emergência climática. 

michelle shawna é ativista por justiça ambiental e coordenadora de projetos. Atualmente, é a responsável pela área de justiça ambiental da APC.

*Esta postagem do blog foi escrita com base em conclusões de pesquisas realizadas nos países citados pelas seguintes organizações:

O Ogiek Peoples’ Development Program (OPDP) é uma organização não governamental queniana estabelecida em 1999 para defender os direitos da comunidade Ogiek e de outros povos indígenas. O OPDP dedica-se à proteção dos direitos humanos, à preservação da cultura e à promoção do desenvolvimento sustentável entre populações indígenas. 

O Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social é uma organização brasileira da sociedade civil que defende direitos democráticos à comunicação. Fundada no início dos anos 2000, o Intervozes trabalha para promover a liberdade de expressão, o acesso à informação, o pluralismo midiático e o direito à comunicação como direitos humanos fundamentais. 

O Manila Observatory é uma instituição de pesquisa nas Filipinas, fundada em 1865. Seu foco é a pesquisa científica para capacitar comunidades no enfrentamento do desenvolvimento sustentável e da resiliência a riscos de desastres. Dentro dessa instituição, o KLIMA Center atua como interface entre ciência e sociedade, com o objetivo de oferecer apoio a políticas públicas com base científica, assistência técnica, fortalecimento de capacidades e disseminação de informações para diversos atores, incluindo órgãos governamentais nacionais e locais, parceiros internacionais no Sudeste Asiático, organizações não governamentais e o setor privado.

A Voces del Territorio é uma organização da sociedade civil mexicana liderada por indígenas que trabalha para apoiar comunidades indígenas na defesa de seus direitos coletivos pelo desenvolvimento e pela implementação de estratégias de incidência política internacional. É responsável por coordenar o trabalho da Indigenous Peoples Rights International (IPRI) no México, por meio de um grupo central de organizações que atuam no país.